Crítica: Inferno em La Palma – A minissérie da Netflix entrega visual e tensão, mas peca no roteiro

A produção, com seus quatro episódios que nos fazem prender a respiração, se passa em uma ilha vulcânica do arquipélago espanhol das Ilhas Canárias, em pleno oceano Atlântico, onde uma família norueguesa em férias se vê no epicentro de uma catástrofe natural de proporções gigantescas. A trama se desenrola em meio à beleza exuberante de La Palma, mas a tranquilidade é rapidamente quebrada com a descoberta de atividades vulcânicas por parte da equipe de monitoramento local. A partir daí, a minissérie embarca em uma montanha-russa de emoções, com a família lutando pela sobrevivência diante da força avassaladora da natureza.

Netflix / Divulgação

Inferno em La Palma se destaca por apresentar um drama humano intenso e emocionante, com personagens complexos, resolvendo suas diferenças e fazendo descobertas sobre si mesmos. A atuação de Bernard Storm Lager, que interpreta o filho mais novo e autista do casal Fredrik e Jennifer, é muito boa, com uma performance autêntica e comovente, assim como os atores que fizeram seus pais, cada qual com profundidade suficiente para nos importarmos com eles e seus problemas no casamento. Já Alma Günther, que interpreta Sara, a filha mais velha, começa muito bem, com suas nuances de adolescente reprimida descobrindo que há espaço para viver sem se preocupar excessivamente com o irmão que inspira cuidados o tempo todo, porém acaba sendo prejudicada pelas decisões dos roteiristas de envolvê-la na manta mágica do protagonismo e conduzi-la pelo caminho mais tortuoso e insólito possível, tudo isso em nome da paixão. A produção possui ótimos efeitos especiais, contribuindo para a imersão do espectador na calamidade e no clima que desde o início se mostrou ameaçador e perdura até o sufocante clímax.

Netflix / Divulgação

Entretanto, a minissérie exagera em certos aspectos, como o tamanho do tsunami e a intensidade de algumas cenas, o que pode distanciar a narrativa da realidade. É até justificável algo assim, pois se trata de uma obra ficcional, mas venderam o pacote como se fosse um tipo de obra próxima do documental e entregaram um primo pobre do apocalíptico filme “2012”. Além disso, o roteiro se entope de ganchos forçados – quando o fortuito se torna tão absurdo que deixa de ser crível – criados apenas para amarrar situações com clichês excessivos e decisões irracionais de vários dos personagens.

Netflix / Divulgação

Os criadores negam, mas está claro que o projeto de Inferno em La Palma ganhou tração a partir da erupção vulcânica que ocorreu na ilha em 2021, o evento mais recente dessa magnitude do Cumbre Vieja, o vulcão mais ativo das Canárias há séculos. Sobre isso, gerou-se vários pontos de controvérsia no mundo real fora das telas:

  • A representação da ilha como um lugar constantemente ameaçado por erupções vulcânicas tem gerado preocupações sobre o impacto negativo no turismo local, uma das principais fontes de renda de La Palma;
  • Algumas das informações científicas apresentadas na obra foram questionadas por especialistas, que apontam imprecisões e exageros na representação dos fenômenos vulcânicos;
  • A crítica especializada recebeu a série de forma bastante dividida. Enquanto alguns elogiam a produção por sua capacidade de gerar emoção e empatia com os personagens, outros a criticam por sua falta de realismo e por sua abordagem sensacionalista.

Voltando ao universo do audiovisual, apesar de suas diversas diferenças, é inevitável não comparar a minissérie da Netflix com o filme “O Impossível”, de 2012, estrelado por Naomi Watts e Tom Holland. Ambas as produções priorizam as histórias pessoais das personagens afetadas pelos desastres, explorando temas como família, amor, perda e superação. O foco está em como as pessoas lidam com o caos e a incerteza, e como os laços familiares são testados em situações extremas. Visam provocar uma forte reação emocional no espectador, com cenas dramáticas e momentos de tensão que exploram os medos e as angústias de quem vive um desastre natural. As duas produções utilizam efeitos visuais impressionantes para retratar a força destrutiva da natureza e o caos causado pelos desastres.

Telecinco / Divulgação

O que os diferencia, principalmente, é a conjuntura do desastre abordado. “O Impossível” retrata o tsunami que atingiu a Tailândia em 2004, enquanto “Inferno em La Palma” se concentra em eventos elaborados ficcionalmente baseados em uma hipotética situação agravada pela atividade vulcânica da ilha, cuja última erupção ocorreu em 2021 e causou algum estrago na região. Essa diferença implica em desafios e perigos distintos, que exigem abordagens diferentes na narrativa. “O Impossível” tem uma pegada mais realista e documental, com base em uma história real. Enquanto um começa bem, desenvolve seus personagens e finaliza o ciclo com maestria, o outro se assume como uma obra do tipo “projeto de blockbuster de desastre em larga escala” e se perde nos exageros.

No final, ficamos com a sensação de que tanta coisa absurda aconteceu e se encaixotou em uma conclusão que parece ter sido escrita antes do roteiro ser finalizado, como uma meta a ser cumprida a todo custo, ainda que não fizesse mais sentido no meio do caminho. Pelo menos, entretém. E é só isso.

Assista ao trailer:


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Publicado por Paulo Araújo

Sou escritor, roteirista e metido a crítico de filmes e séries.

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